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segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Maria, Espelho meu, espelho nosso
Quando a gente busca na oração e na sinceridade, Deus sempre vem em nosso auxílio. Partilho com você minha experiência recente com um esplêndido e misterioso espelho.
Há alguns meses atrás, matutava e rezava sobre o fato de os Padres da Igreja compararem Maria a um Espelho. Estava relendo o livro de Raniero Cantalamessa: “Maria, espelho da Igreja”. Por que espelho?, refletia eu. O que significa mesmo essa coisa de Maria ser “espelho”? Mais: espelho perfeitíssimo?
Ao matutar, me vinha o fato de que, na antiguidade, os espelhos eram imprecisos e embaçados, feitos de bronze e bastante caros. Vi-me a imaginar os Padres da Igreja a buscarem uma figura para que Maria fosse melhor entendida, melhor contemplada e, insatisfeitos com os espelhos imprecisos de que dispunham, tentar expressar a Mãe de Deus como, a um tempo, Seu Espelho perfeitíssimo, sem impurezas e espelho da Igreja, esposa sem ruga e sem mancha do Cordeiro.
Por providência divina, vieram a cair em minhas mãos dois textos preciosos sobre o assunto. O primeiro, escrito por um sacerdote, Pe. Jacques Loew, da ordem dos pregadores:
Nessa altura, é preciso contemplar a humildade de Maria, uma humildade humilde e discreta, porque somente alguém com tal humildade poderia receber a luz absoluta sem ser encandeado e sem a guardar para si. Porque Maria não tem nenhuma preocupação consigo mesma, sua humildade e sua oração são uma só coisa. A oração de Maria é como um espelho puro que não guarda nada da luz, mas a reflete inteiramente. Toda a luz de Deus vem a ela e a penetra, mas ela a reflete toda, uma vez que é, segundo a antiga palavra das litanias da Virgem, espelho sem mancha da santidade de Deus.
A humildade!, percebi. É a humildade de Maria, que não guarda nada para si, que não tem nenhuma preocupação consigo mesma que a faz não guardar nada da luz, mas refleti-la toda, como um puríssimo espelho. A luz de Deus, diz Pe. Lowen, vem a ela e a penetra, mas ela a reflete toda.
Fiquei a pensar em que espelho da santidade de Deus tenho sido e percebi que nem na idade da pedra poderia haver nada mais opaco, mais sem luz, um buraco negro de orgulho, egoísmo e vaidade que nada reflete da luz de Deus. Essa reflexão, juntamente com o pensamento clássico de Santa Teresa de Jesus sobre o pano negro do pecado, preencheu-me durante meses, a me dizer o quanto era necessário para mim, para todas as mulheres e homens de hoje olhar o espelho que é Maria para, a um tempo, conhecer a Deus, conhecer-se e encher-se da esperança e misericórdia irradiados por aquele espelho de ternura materna.
Para minha grande surpresa, veio-me às mãos um segundo texto, desta vez não de um religioso ou homem de fé, e sim um cronista apaixonado por Nietzche mas nem tanto por uma fé confessional: Rubem Alves.
Em uma de suas crônicas, Beleza, ele compara sabiamente os conceitos de “pretty” e “beautiful”, em inglês. Para facilitar, corresponderiam ao nosso “bonito” e “belo”. Diz que “pretty”, “bonito” é uma beleza exterior, efêmera, que tende a desaparecer e pode ser fabricada por cirurgias plásticas. O “beautiful”, por seu lado, pertence às coisas eternas, é uma qualidade interior, que nunca aparece à própria pessoa. Veja como, a certa altura, nosso cronista, sem se dar conta, descreveu nossa Maria, nosso “Espelho sem Mancha”, nosso “Reflexo perfeito de Deus”:
A beleza (...) não é. Ela aparece e se vai. Ela não freqüenta clínicas de beleza. Uma pessoa “é” “pretty” (bonita), mas não “é” “beautiful” (bela). Ela é, no máximo, o lugar onde o “beautiful”, a beleza, se deixa ver. A beleza não é a qualidade do corpo, a música não é o instrumento, o perfume não é a flor, as cores do arco-íris não são o prisma.O corpo é apenas o lugar onde a beleza se deixa ver. Uma pessoa é bela naquilo que ela não é. É no lugar onde ela não é que o seu corpo deixa ver. O “pretty” é uma pintura. O “beautiful” é um espelho... E não é de admirar que, com freqüência, os espelhos sejam “poças de água barrenta” como no desenho de Escher.
Na obra citada, o artista holandês M.C. Escher retrata uma poça de água lamacenta cavada por marcas de pneus, que reflete como em um espelho, o céu azul e pinheiros. Não é impressionante? Rubem Alves, este cronista fenomenal, que não se declara católico, percebeu, ainda que sem se dar conta, como Maria é espelho e porque diz: “Olhou para a humildade, olhou para o nada, de sua serva e, de agora em diante, todos me chamarão bem-aventurada”.
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por Maria Emmir Nogueira, Co-fundadora da Comunidade Shalom
Revista Shalom Maná - Ed. Shalom
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